Em Ainda Estou Aqui, o diretor Walter Salles entrega ao público muito mais do que um drama familiar ambientado nos anos de chumbo da ditadura militar brasileira. Ele constrói uma narrativa onde cada elemento da cenografia carrega uma carga simbólica — e é justamente nesse cuidado com a ambientação que arte e design se tornam protagonistas silenciosos da história.
O filme se passa majoritariamente na casa da família Paiva, localizada no bairro da Urca, no Rio de Janeiro. O espaço doméstico, longe de ser neutro, é um reflexo direto do contexto político e cultural da época. A ambientação foi pensada para expressar a identidade daquela família e, ao mesmo tempo, comunicar ao espectador — ainda que de forma sutil — os valores de resistência, memória e intelectualidade que permeiam a trama.
O mobiliário, por exemplo, é um verdadeiro inventário do design moderno brasileiro. A presença da icônica poltrona Mole, criada por Sérgio Rodrigues em 1957, evoca uma brasilidade sofisticada, confortável e resistente, contrastando com a rigidez e frieza do regime militar que assombra os personagens. A escolha dessa peça não é casual: ela representa um Brasil que pensa, cria e resiste por meio da estética.
Outro destaque na cenografia são as obras do artista Hélio Oiticica, especialmente da série Metaesquemas. Oiticica foi uma figura central na arte brasileira da segunda metade do século XX, conhecido por seus trabalhos que desafiavam convenções formais e políticas. Sua presença no ambiente doméstico da família Paiva não só reforça o espírito de vanguarda e engajamento político, como também estabelece a casa como um espaço de crítica e pensamento livre.
Esses elementos visuais — design e arte — não servem apenas para recriar uma época. Eles são dispositivos de linguagem cinematográfica, ajudando a construir camadas simbólicas que aprofundam a experiência do espectador. São sinais silenciosos que dizem muito: sobre quem são esses personagens, o que eles valorizam, e qual é o espaço que ocupam em um país em conflito com sua própria democracia.
Ainda Estou Aqui é, antes de tudo, um filme sobre memória — coletiva e individual. E é através da materialidade do cenário que essa memória ganha forma. Objetos cotidianos, obras de arte e peças de design tornam-se vestígios de um tempo em que resistir era, muitas vezes, um ato doméstico, silencioso, mas profundamente político.
A arte e o design não apenas constroem o universo do filme, mas também sugerem que a cultura é um espaço essencial de enfrentamento e sobrevivência. Nesse sentido, a casa da família Paiva é uma cápsula de resistência, onde estética e história se entrelaçam para contar uma história que ainda reverbera nos dias de hoje.
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