No coração pulsante de Londres, em Piccadilly Circus, aconteceu algo tão curioso quanto contraditório: uma mostra inteiramente dedicada à arte do grafite foi encerrada… por um ato de grafitagem não autorizada. A exposição Long Dark Tunnel, organizada pela plataforma Arts Arkade em parceria com a revista Big Issue, reuniu grandes nomes da cena – como 10Foot, Tox e Fume – e tinha como um de seus objetivos principais arrecadar fundos para pessoas em situação de rua.
Na madrugada de um dia qualquer, surgiu nas paredes do espaço de exposição – e até em fachadas vizinhas pertencentes ao portfólio multimilionário do Crown Estate – a inscrição “fuck the king”. Classificado como “dano criminal”, o ato motivou a administração do próximo imóvel a exigir o fechamento imediato da mostra. Em nota oficial, os organizadores lamentaram o ocorrido e destacaram:
“Não há nenhuma evidência de que os artistas da Long Dark Tunnel tenham sido responsáveis pela pichação.”
Além disso, ressaltaram o caráter social do projeto, que conseguiu angariar centenas de milhares de libras para apoiar pessoas em situação de rua.
Para os artistas envolvidos, o episódio só reforça a velha narrativa de que quem faz arte de rua é imediatamente rotulado como “vândalo”. Nas palavras do próprio 10Foot:
“É a mesma história de sempre. Somos tratados como vândalos, mesmo quando realizamos algo reconhecido como positivo. É como ser uma raposa caçada.”
A frase sintetiza bem o paradoxo: uma linguagem visual nascida na resistência urbana, celebrada por seu potencial de transformação social, mas ainda sob forte suspeita das instituições.
A Long Dark Tunnel vinha conquistando elogios não só pela qualidade estética, mas também pelo engajamento comunitário. Oficinas, debates e arrecadações de doações faziam parte da programação, aproximando moradores, turistas e a própria cena de rua de questões urgentes de justiça social.
Contudo, ao fim, a mesma ferramenta de expressão – o spray – serviu de pretexto para interromper o diálogo. O episódio expõe:
A história da exposição derrubada pelo próprio grafite convida a uma pergunta fundamental: quem realmente ganha com a criminalização da arte de rua? Se o grafite é, para muitos, voz dos invisíveis, silenciá-lo significa também ignorar demandas históricas de inclusão e justiça.
No fim das contas, o caso da Long Dark Tunnel é mais do que um curioso episódio londrino: é um alerta para cidades do mundo inteiro. Que o grafite, em suas múltiplas facetas — do protesto à solidariedade — seja sempre reconhecido como linguagem legítima de intervenção e não apenas como objeto de vigilância e repressão.
Cadastre seu e-mail e receba novidades mensais da Binaria diretamente por e-mail!