O tempo é, talvez, o maior curador de todos. Em 2005, Damien Hirst colocava crânios cravejados de diamantes no centro da cena artística, enquanto Jeff Koons transformava esculturas infláveis em ícones de uma era obcecada por espetáculo, consumo e ostentação. Takashi Murakami, com sua estética entre o mangá e o branding de luxo, unia Oriente e Ocidente sob o signo da cultura pop globalizada.
Avançamos para 2025. Os nomes que dominam as buscas, os leilões e — principalmente — o imaginário cultural são outros. Mas não se trata apenas de uma substituição de artistas. A diferença é mais profunda: estamos vivendo uma mudança estrutural na forma como entendemos, consumimos e valorizamos a arte.
O Artnet Intelligence Report – Spring 2025 nos oferece uma oportunidade rara: olhar para esse intervalo de 20 anos como um campo de transformação — onde o mercado se reorganiza, as estéticas se reconfiguram e os discursos ganham novos centros de gravidade.
A arte dos anos 2000 era marcada por um tipo de “glamour inflável”: grandes nomes, grandes cifras, grandes gestos. Havia uma fascinação pelo artista-celebridade, pela obra como espetáculo e pelo leilão como palco. Esse cenário — em grande parte impulsionado pela lógica da globalização neoliberal — colocava poucos nomes em altíssima visibilidade, enquanto silenciava a pluralidade de narrativas que hoje ganha espaço.
Em 2025, a ideia de sucesso artístico não está mais necessariamente ligada a recordes ou presença em feiras internacionais. Está associada à capacidade de diálogo, à relevância contextual, à potência de dizer algo que ressoe com questões urgentes — seja nas margens, nas redes ou nos centros em transição.
O relatório da Artnet não apenas destaca quem são os artistas mais buscados em 2025, mas também sugere por que eles estão em evidência:
Essa mudança revela algo fundamental: não basta mais ser “bom artista” segundo critérios hegemônicos. É preciso ser capaz de tensionar, transformar e contribuir para um novo léxico cultural.
Com a queda nas vendas de obras acima de US$ 10 milhões (-44,2%) e o enfraquecimento da arte ultra-contemporânea como objeto especulativo (-37,9%), o mercado parece reencontrar uma forma de “respiro”. O foco deixa de ser o “buzz” e passa a recair sobre obras que oferecem consistência, trajetória e sentido.
A especulação deu lugar ao olhar afetivo. A compra impulsiva foi substituída pela curadoria pessoal. A obra como símbolo de status virou a obra como espelho da experiência.
Em 2005, o colecionador típico era majoritariamente homem, branco, ocidental, com capital acumulado e ligação direta com o circuito tradicional. Em 2025, esse perfil se descentraliza: surgem colecionadores jovens, digitais, interessados em narrativas sociais e novas formas de relação com a arte — da experiência virtual à coleção híbrida.
A Geração Z e os millennials não apenas compram arte — eles se envolvem, interagem, compartilham, questionam. Essa nova postura impacta o mercado, os curadores e os próprios artistas, exigindo mais autenticidade, mais posicionamento e menos obviedade.
Esse comparativo entre 2005 e 2025 é mais do que uma curiosidade histórica. Ele marca a passagem de uma era de concentração para uma era de pluralidade. De uma lógica centrada no “blockbuster artístico” para outra, onde os múltiplos centros se expandem e os afetos importam tanto quanto os conceitos.
O mercado de arte está passando por uma transformação real — estética, política e simbólica. E talvez o mais importante: essa mudança é irreversível.
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