Quando pensamos em Pop Art, os nomes que imediatamente surgem são Warhol, Lichtenstein, Hockney – ícones de um movimento que explodiu nos EUA e no Reino Unido celebrando (e às vezes ironizando) o frenesi da cultura de consumo, das celebridades e da publicidade. Mas e no Brasil? Existiu Pop Art por aqui? A resposta é um vibrante “sim, mas com um sabor totalmente nosso”!
Diferente de seus primos do norte, o Pop Art brasileiro não foi um movimento homogêneo ou declarado com um manifesto próprio. Ele emergiu de forma mais discreta e tardia, nos turbulentos anos 1960, e se misturou de forma fascinante com outras correntes poderosas da época, principalmente a Nova Figuração e a efervescência da Tropicália. Mais do que celebrar o consumo, o Pop tupiniquim vestiu as cores vibrantes e a linguagem da comunicação de massa para fazer uma crítica social e política contundente, refletindo as angústias e contradições de um país sob uma ditadura militar.
Enquanto Warhol serializava latas de sopa ou retratos de Marilyn, nossos artistas traziam para as telas e serigrafias:
A Crítica Política Afiada: O contexto da repressão militar (iniciada em 1964) foi determinante. A arte pop brasileira usou sua estética acessível e impactante para denunciar a violência, a censura e a alienação.
Ícones Nacionais: Futebol, carnaval, música popular, marginalizados urbanos, violência das grandes cidades – estes eram os “produtos de consumo” e símbolos que nossos artistas apropriavam e ressignificavam.
Fusão de Linguagens: O “pop” por aqui raramente veio puro. Ele se fundiu com o expressionismo da Nova Figuração (com sua carga emocional e distorção) e com a irreverência antropofágica da Tropicália, que devorava referências internacionais e nacionais para criar algo novo e crítico.
Menos Fascínio, Mais Denúncia: A postura geral foi mais de questionamento do que de fascínio pelo consumo desenfreado. A massificação era vista com desconfiança, como um potencial instrumento de alienação.
Vamos conhecer alguns dos nomes fundamentais que incorporaram a estética pop de forma genial e crítica:
Rubens Gerchman (1942-2008): Talvez o artista mais diretamente associado à estética pop no Brasil. Suas obras são um caldeirão de cores fortes, ícones da cultura popular (como o futebol) e uma profunda empatia pelos marginalizados. Sua obra-prima, “Lindonéia” (1966), inspirada em uma música de Caetano Veloso e na notícia de um feminicídio, é um retrato pungente e crítico da violência urbana e da condição feminina, usando a linguagem próxima dos quadrinhos e dos cartazes. Obra Emblemática: Lindonéia (1966)
Antonio Dias (1944-2018): Na sua fase pop dos anos 60, Dias mergulhou em um universo gráfico poderoso, usando símbolos nacionais, referências à violência da ditadura e uma estética crua, próxima das HQs e dos panfletos políticos. Sua arte era um grito de alerta. Obra Emblemática: A Notícia II (1965)
Wesley Duke Lee (1931-2010): Um pioneiro da vanguarda paulistana e fundador do influente (e irreverente) grupo Rex Gallery & Sons. Duke Lee incorporou elementos pop, surrealistas e da publicidade com uma ironia fina, criticando a elite e a sociedade de consumo de São Paulo. Obra Emblemática: Série Homenagem a Fontana (com uma abordagem nada convencional).
Claudio Tozzi (1944 - ): Mestre da linguagem gráfica impactante. Tozzi usou cores chapadas, silhuetas definidas e técnicas de serigrafia (tão caras ao pop) para trabalhar com ícones urbanos e políticos. Sua versão de Che Guevara (“Guevara Vivo ou Morto” - 1967) e suas multidões são exemplos perfeitos de como a estética pop servia à reflexão política e social. Obra Emblemática: Guevara Vivo ou Morto (1967), série Multidão.
Nelson Leirner (1932 - 2020): O rei da apropriação, da ironia e da crítica institucional. Leirner pegava objetos do cotidiano, imagens da mídia e ícones (religiosos, políticos, artísticos) e os colocava em contextos inesperados e provocadores. Questionava o valor da arte, o consumo e o poder com um humor ácido profundamente ligado ao espírito pop de usar a cultura de massa. Obra Emblemática: O Grande Combate (1967), suas irreverentes Homenagens a Fontana.
Carlos Vergara (1941 - ): Em sua fase inicial nos anos 60, Vergara explorou cores intensas, temas ligados ao erotismo, à violência e à cultura popular, utilizando técnicas serigráficas características do pop, sempre com uma carga expressionista e crítica. Foi um expoente da Nova Figuração carioca.
O Pop Art no Brasil não foi uma simples cópia do modelo internacional. Foi uma reinvenção poderosa e necessária. Mostrou que a linguagem visual da cultura de massa – suas cores, sua repetição, sua iconografia – podia ser uma arma potente para refletir e criticar a complexa realidade nacional em um período de opressão e transformação.
Esses artistas nos deixaram um legado que continua a ecoar: a capacidade da arte de dialogar com o seu tempo, de usar as ferramentas do cotidiano e da comunicação para questionar, denunciar e celebrar (de forma crítica) a identidade de um povo. É um capítulo essencial da nossa história da arte, onde a crítica social vestiu as cores mais vibrantes da cultura popular.
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